Para a maioria da dor crónica nas costas, o tratamento conservador é a primeira linha.

Na maioria dos casos de dor crónica nas costas, o tratamento conservador — exercício, reabilitação e mudanças no estilo de vida — é recomendado como primeira abordagem, antes de se pensar em cirurgia. As guidelines internacionais apontam nesse sentido e a evidência mostra que o exercício ajuda a reduzir a dor e a recuperar função. A cirurgia tem o seu lugar em situações específicas, mas é uma decisão médica e individual — não um ponto de partida obrigatório.

A cirurgia é mesmo a única saída para a dor crónica nas costas?

A dor crónica nas costas afeta milhares de pessoas e, quando se arrasta no tempo, é natural começar a pensar que a cirurgia é o único caminho que resta. Recebo muitas pessoas em Aveiro exatamente nesse ponto: cansadas, assustadas e convencidas de que vão ter de operar.

A boa notícia é que, na maioria dos casos de dor lombar crónica não específica, há um caminho a percorrer antes disso. Não se trata de estar "a favor" ou "contra" a cirurgia — trata-se de perceber que, para muita gente, existem abordagens menos invasivas que ajudam a recuperar a dor e a função. A cirurgia continua a ser uma opção importante em situações específicas, mas raramente é o ponto de partida obrigatório.

O que dizem as guidelines sobre o tratamento da dor crónica?

Esta não é apenas a minha opinião enquanto fisioterapeuta. As recomendações internacionais vão no mesmo sentido. As guidelines do American College of Physicians, por exemplo, recomendam de forma firme que, na dor lombar crónica, se comece por abordagens conservadoras e não-farmacológicas — exercício, reabilitação multidisciplinar, técnicas de gestão do stress, entre outras — antes de se avançar para medidas mais agressivas.

No mesmo sentido, uma ampla revisão Cochrane concluiu que o exercício é eficaz a reduzir a dor e a melhorar a função em quem vive com dor lombar crónica. Ou seja, há base científica sólida para começar pelo movimento e pela reeducação do corpo, e não pela sala de operações. Isto é particularmente importante porque cada cirurgia adiada de forma informada é também um risco evitado, desde que a opção conservadora seja levada a sério e bem acompanhada.

Porque é que tratar só a dor não chega?

Muitos tratamentos convencionais focam-se apenas em silenciar o sintoma — analgésicos, anti-inflamatórios e outras medidas paliativas. Estes podem dar alívio temporário, mas não tocam naquilo que está, de facto, a manter a dor.

A dor crónica é, quase sempre, multifatorial. Padrões de movimento desajustados, tensões acumuladas, postura, sono, nível de atividade e fatores emocionais como o stress e a ansiedade entram todos na equação. Se estes fatores não forem trabalhados, a dor tende a regressar — mesmo depois de uma cirurgia tecnicamente bem feita. É por isso que, no meu trabalho, procuro sempre a origem, e não apenas o sintoma.

Que alternativas existem antes de pensar em cirurgia?

Felizmente, há várias abordagens eficazes e bem toleradas para a dor crónica nas costas. As que mais uso, de forma combinada e adaptada a cada pessoa, são:

  • Reabilitação funcional. Em vez de fortalecer músculos de forma isolada, trabalho a mobilidade e a flexibilidade da coluna de modo integrado, devolvendo ao corpo a sua função natural sem o sobrecarregar.
  • Equilíbrio postural. Pequenos ajustes na forma de sentar, levantar pesos ou caminhar reduzem, somados, uma grande parte da dor que vem de padrões de movimento desadequados.
  • Fortalecimento inteligente. Ao contrário do que se pensa, não é preciso treino intenso de abdominal. O foco está na coordenação entre os músculos que estabilizam e os que produzem movimento, dando suporte à coluna sem rigidez excessiva.
  • Terapias manuais. Técnicas como a libertação miofascial e a terapia manipulativa ajudam a soltar tensões e a restaurar a mobilidade das articulações.
  • Abordagem psicoemocional. Como o stress e a ansiedade amplificam a dor, integro técnicas de relaxamento, como a respiração diafragmática, que reduzem a tensão muscular e melhoram a forma como a dor é sentida.

Repare que nenhuma destas estratégias depende de equipamento sofisticado nem de esforço extremo. O que faz a diferença é a consistência e o facto de o plano ser desenhado para si — para o seu corpo, a sua rotina e os seus objetivos. É essa personalização que transforma um conjunto de exercícios genéricos num verdadeiro caminho de recuperação, sustentável ao longo do tempo.

Como trabalho a dor crónica na Saúde Integrativa, em Aveiro?

No meu método de Saúde Integrativa, construído ao longo de 25 anos de experiência, a dor crónica nunca é olhada como um problema isolado da coluna. Trato a origem, integrando quatro pilares: gestão emocional, alimentação, liberdade de movimento e estilo de vida.

Na prática, isto significa analisar cada pessoa de forma individual — a sua história, os seus padrões de movimento, os fatores biomecânicos e o seu dia a dia — para desenhar um plano que faça sentido para ela. E há aqui um princípio que considero central: o corpo tem uma enorme capacidade de se reorganizar e recuperar quando lhe damos as condições certas. O meu papel não é "curar" a partir de fora, mas ativar e apoiar essas competências que o próprio corpo já possui, através de mudanças nos pilares da saúde.

Então a cirurgia nunca é necessária?

Não é isso que defendo — e é importante ser claro. Há situações em que a cirurgia é a opção certa: por exemplo, perante défices neurológicos progressivos, ou quando um tratamento conservador bem conduzido não traz a melhoria esperada. Nesses casos, operar pode ser exatamente o que a pessoa precisa.

O ponto é outro: essa é uma decisão médica, tomada com o médico, ponderando o caso concreto. Enquanto fisioterapeuta, o meu papel não é dizer-lhe para evitar ou recusar uma cirurgia, mas ajudá-la a explorar bem as alternativas conservadoras e a chegar a essa decisão informada e tranquila. Fisioterapia e medicina não competem — complementam-se.

Por onde começar, se vive com dor crónica nas costas?

Se vive com dor crónica e já lhe falaram em cirurgia, o passo mais útil que pode dar não é decidir já — é perceber primeiro todas as suas opções. Uma avaliação individual, que olhe para si como um todo e não só para a sua coluna, é o melhor ponto de partida.

Importa deixar claro que cada caso é único e que este texto não substitui uma avaliação clínica nem a opinião do seu médico. Mas a mensagem de fundo é de esperança e de realismo: para a maioria das pessoas com dor crónica nas costas, há muito a fazer antes da cirurgia — e, muitas vezes, o suficiente para a evitar.

Perguntas frequentes

A cirurgia às costas resolve sempre a dor?

Nem sempre. Há pessoas que continuam com dor depois da cirurgia, sobretudo se os fatores que mantêm a dor — movimento, stress, hábitos — não forem trabalhados. Por isso a decisão deve ser bem ponderada com o médico.

Quando é que a cirurgia é mesmo necessária?

Em situações específicas, como défices neurológicos progressivos ou quando um tratamento conservador bem conduzido não resulta. Essa avaliação é médica — o fisioterapeuta não a substitui.

O que recomendam as guidelines para a dor crónica nas costas?

Na maioria dos casos de dor lombar crónica não específica, recomendam começar por abordagens conservadoras, como exercício e reabilitação, antes de medidas invasivas.

A fisioterapia evita a cirurgia?

Em muitos casos, um bom tratamento conservador melhora a dor e a função o suficiente para a cirurgia deixar de se justificar. Não é garantido, e a decisão é sempre partilhada com o médico.

Referências

  • Qaseem A, Wilt TJ, McLean RM, Forciea MA; Clinical Guidelines Committee of the American College of Physicians. Noninvasive Treatments for Acute, Subacute, and Chronic Low Back Pain: A Clinical Practice Guideline From the American College of Physicians. Ann Intern Med. 2017;166(7):514-530.
  • Hayden JA, Ellis J, Ogilvie R, Malmivaara A, van Tulder MW. Exercise therapy for chronic low back pain. Cochrane Database Syst Rev. 2021;9(9):CD009790.