A dor que persiste tem tanto de cérebro e emoção como de corpo.

A dor nas costas persiste, muitas vezes, não porque haja uma lesão por sarar, mas porque o sistema nervoso e o cérebro aprenderam a manter o alarme ligado. Na transição de dor aguda para crónica, mudam a sensibilidade e até os circuitos cerebrais ligados à motivação e à recompensa, e as emoções como o stress e a ansiedade amplificam a experiência. A boa notícia: como o cérebro é adaptável, esta persistência pode ser revertida, sobretudo com uma abordagem que cuida do corpo e da mente em conjunto.

Porque é que a dor não passa, mesmo depois de tratar?

A dor nas costas afeta milhões de pessoas e, em muitos casos, prolonga-se por meses ou anos. Gera frustração, limita a vida e leva a pessoa a tentar tratamento após tratamento sem o alívio que procura. Se já passou por isto — dor que insiste em ficar, apesar de tudo o que fez —, não está sozinho; vejo-o com frequência no meu trabalho em Aveiro.

A explicação, muitas vezes, é mais profunda do que "um músculo que não sarou". Para compreender porque é que a dor persiste, precisamos de olhar para a forma como o sistema nervoso e o cérebro respondem e se adaptam à dor ao longo do tempo. É aí que costuma estar a resposta — e, com ela, a saída.

O que é, afinal, a dor?

Convém começar pelo princípio. A dor é uma experiência, e não um simples sinal. Surge, em parte, da ativação dos nociceptores — sensores que detetam estímulos potencialmente prejudiciais, como lesões, inflamação ou compressão de nervos. Mas aqui está o ponto que muitos desconhecem: a dor não depende apenas do estímulo físico.

A mesma situação pode doer mais ou menos consoante o que o cérebro faz com essa informação. Fatores emocionais, cognitivos e de contexto entram todos na equação. Por isso, a dor pode ser amplificada ou atenuada pela forma como o cérebro a interpreta — o que não a torna "imaginária", mas sim profundamente real e, ao mesmo tempo, modulável. É a mesma razão pela qual um atleta pode nem sentir um corte no calor de uma prova, e por que uma noite mal dormida ou um período de grande stress fazem a mesma dor parecer muito pior. O cérebro está sempre a fazer este cálculo, na maior parte das vezes sem darmos por isso.

Como é que a dor aguda se torna crónica?

Quando surge, a dor funciona como um alarme: avisa-nos para nos protegermos. O problema é quando esse alarme não se desliga. Em algumas pessoas, ele permanece ativo mesmo depois de a lesão ou o problema inicial estarem resolvidos — e a dor aguda transforma-se em dor crónica.

É como se o cérebro e o sistema nervoso "aprendessem" a dor e a mantivessem ligada por hábito. Este fenómeno, conhecido como sensibilização, faz com que o sistema fique mais reativo, amplificando sinais que noutras circunstâncias seriam inofensivos. Explorei esta mudança, do lado do movimento, no artigo sobre como a dor crónica altera a perceção do movimento.

O cérebro pode "prender-se" à dor?

Aqui está uma das descobertas mais fascinantes — e o que torna esta história tão particular. Investigação de imagem cerebral mostrou que, nas pessoas em que a dor nas costas se torna crónica, há alterações reais no cérebro: a densidade de substância cinzenta diminui, e os circuitos ligados à motivação e à recompensa parecem ter um papel decisivo.

Em concreto, a forma como uma área profunda do cérebro associada à recompensa comunica com o córtex pré-frontal ajuda a prever se uma dor recente vai ou não tornar-se crónica. Por outras palavras, os mesmos circuitos que nos motivam a procurar alívio — uma experiência tão gratificante para o cérebro como comer ou descansar — podem, na dor que se arrasta, entrar num ciclo disfuncional: procura-se alívio repetidamente, sem o encontrar, e o sistema vai-se reorganizando à volta da dor. Não é falta de vontade nem fraqueza; é biologia. E perceber isto muda a forma como nos relacionamos com a dor: deixa de ser uma luta contra um corpo que "nos trai" e passa a ser um trabalho de reeducação de um sistema que se desregulou e que pode voltar a regular-se.

Que papel têm as emoções e os pensamentos?

Se o cérebro é tão central, então a forma como pensamos e sentimos a dor pesa, e muito. A ansiedade, o stress, a depressão e até a simples expectativa de dor podem amplificar o sofrimento. Quando uma pessoa acredita que a dor nunca vai passar, ou que está fora do seu controlo, o cérebro tende a aumentar a resposta dolorosa — uma profecia que se cumpre a si mesma.

No meu trabalho em Aveiro, muitas das pessoas que acompanho precisaram, antes de mais, de compreender esta dimensão emocional e cognitiva da dor. E a investigação confirma-o: mudar a forma como se percebe a dor reduz o medo e melhora os resultados do tratamento. Compreender é, em si, terapêutico. Não se trata de "é tudo da cabeça" — é reconhecer que a cabeça e o corpo são, na dor, inseparáveis, e que ignorar um deles deixa o tratamento sempre a meio.

Então o que pode fazer?

Se a dor que persiste tem tanto de cérebro e de emoção como de corpo, faz sentido que o tratamento também os abranja. As abordagens que se mostram mais eficazes na dor crónica são as que integram o trabalho físico com o apoio emocional e cognitivo — restaurando o equilíbrio entre corpo e mente, em vez de tratar apenas o sintoma.

É exatamente esta a lógica da minha Saúde Integrativa: olhar para a pessoa como um todo, trabalhando o movimento, o sono, a alimentação e a gestão emocional em conjunto. Sobre o peso das emoções, em particular, escrevi também no artigo sobre emoções e dores nas costas.

Por onde começar, se a dor já dura há muito tempo?

O primeiro passo, muitas vezes, é o mais libertador: perceber que dor crónica não é sinónimo de um corpo destruído nem de uma sentença para sempre. Como o cérebro é adaptável, aquilo que aprendeu a manter também pode ser reaprendido e revertido.

Importa deixar claro que cada caso é único e que este texto não substitui uma avaliação clínica individual. Mas a mensagem de fundo é de esperança fundamentada: olhar para a dor de uma nova perspetiva — e procurar um tratamento que vá além do puramente físico — pode ser o início do caminho para, finalmente, sentir alívio.

Perguntas frequentes

A dor que persiste significa que a lesão não sarou?

Nem sempre. Muitas vezes os tecidos já saráram e a dor mantém-se porque o sistema nervoso continua sensível — é a chamada dor crónica.

A minha dor nas costas pode estar ligada ao stress e à ansiedade?

Sim. Emoções como o stress, a ansiedade e o medo podem amplificar a dor e ajudar a perpetuá-la. Trabalhá-las faz parte do tratamento.

Já tentei tratamentos físicos sem resultado. O que falta?

Por vezes o problema não está só no músculo ou na articulação, mas na forma como o cérebro mantém a dor. Uma abordagem que junte o físico e o emocional costuma ser mais eficaz.

A dor crónica é irreversível?

Não. Como o cérebro é adaptável, a persistência da dor pode ser revertida. Acreditar que é irreversível, aliás, tende a piorá-la.

Referências

  • Baliki MN, Petre B, Torbey S, et al. Corticostriatal functional connectivity predicts transition to chronic back pain. Nat Neurosci. 2012;15(8):1117-1119.
  • Woolf CJ. Central sensitization: implications for the diagnosis and treatment of pain. Pain. 2011;152(3 Suppl):S2-S15.
  • Bodes Pardo G, Lluch Girbés E, Roussel NA, et al. Pain Neurophysiology Education and Therapeutic Exercise for Patients With Chronic Low Back Pain: A Single-Blind Randomized Controlled Trial. Arch Phys Med Rehabil. 2018;99(2):338-347.