A mesma dor, vivida de formas únicas: a individualidade é a chave do tratamento.
A dor nas costas é diferente em cada pessoa porque a dor não é apenas um sinal do corpo: resulta de uma combinação única de fatores biológicos, psicológicos e sociais. A genética, as experiências anteriores, as crenças, o stress e o contexto de cada um moldam não só a intensidade da dor, mas a forma de a viver. É por isso que não existe um tratamento igual para todos — o caminho mais eficaz é o que parte da história e das necessidades de cada pessoa.
Porque é que a mesma dor varia tanto de pessoa para pessoa?
A dor nas costas é um dos problemas de saúde mais comuns do mundo e afeta pessoas de todas as idades. No entanto, apesar de tão frequente, cada pessoa sente e reage à dor de uma forma única. Duas pessoas com aparentemente o mesmo problema na coluna podem ter experiências completamente diferentes: uma fica incapacitada e em sofrimento, a outra mal lhe liga e segue a vida.
Porquê? Como fisioterapeuta em Aveiro, é uma das perguntas a que mais procuro responder, porque a resposta está na raiz de um bom tratamento. E a resposta começa por desfazer um equívoco: a dor não é um simples "medidor" do estado dos tecidos. É algo bem mais individual — e este artigo é sobre isso.
A dor é só um sinal do corpo?
Não. Há muito que a ciência abandonou a ideia de que a dor é apenas o reflexo direto de uma lesão. O modelo hoje mais aceite para compreender a dor crónica é o chamado modelo biopsicossocial: a dor resulta da interação entre fatores biológicos (os tecidos, os nervos, a inflamação), psicológicos (as emoções, as crenças, a atenção) e sociais (o contexto, o trabalho, as relações).
É por isso que a mesma "entrada" no corpo pode dar origem a dores tão diferentes. O cérebro não se limita a registar um sinal: interpreta-o, à luz de tudo o que a pessoa é e viveu. Não torna a dor menos real — torna-a, sim, profundamente pessoal. Pense em duas pessoas com a mesma hérnia de disco num exame: uma, ansiosa e convencida de que está "partida", vive em sofrimento; a outra, tranquila e ativa, quase nem dá por ela. A imagem é igual; a experiência é outra. E é a experiência, não a imagem, que precisamos de tratar.
Porque é que umas pessoas são mais sensíveis à dor do que outras?
Aqui está uma das partes mais esclarecedoras, e que costuma trazer alívio a quem se sente injustamente "fraco". A investigação mostra que existem diferenças individuais robustas na sensibilidade à dor — e que uma boa parte dessa variação é genética. Herdamos predisposições que tornam o nosso sistema de dor mais ou menos reativo.
Mas não é só a genética. O sexo, a idade, a personalidade e o ambiente também pesam, e o desenvolvimento de uma dor crónica é, em rigor, uma interação entre genes e circunstâncias: é preciso, muitas vezes, um acontecimento desencadeador (uma sobrecarga, uma lesão, um período difícil) a encontrar um terreno predisposto. Por outras palavras: ser mais sensível à dor não é fraqueza nem "estar na cabeça" — é, em boa parte, a biologia com que cada um nasceu. Esta ideia tem um valor terapêutico que costumo sublinhar: muitas pessoas chegam culpando-se por "não aguentarem" a dor como os outros. Perceber que parte da diferença é constitucional, e não um defeito de carácter, retira um peso enorme — e abre espaço para trabalhar o que, esse sim, se pode mudar.
Que papel têm as experiências, as crenças e o contexto?
Por cima desta base biológica, vai-se construindo uma história. Experiências anteriores de dor, o nível de stress, o humor e, sobretudo, as crenças sobre a própria dor moldam a forma como a vivemos. Quem acredita que a sua coluna está "destruída" e que qualquer movimento é perigoso tende a sentir mais dor e a evitar mais — o que, com o tempo, agrava o problema.
Há ainda o fator tempo: na dor que se prolonga, o sistema nervoso pode tornar-se mais sensível, amplificando sinais que antes seriam inofensivos. Como esse processo também varia de pessoa para pessoa, duas histórias que começam parecidas podem seguir caminhos muito diferentes. É também por isto que comparar-se com os outros raramente ajuda: o percurso de recuperação de cada pessoa tem o seu próprio ritmo, e medir-se pela régua alheia costuma gerar mais frustração do que motivação. Aprofundo este ponto no artigo sobre porque é que a dor nas costas persiste.
Se cada dor é única, o que significa isto para o tratamento?
Significa o mais importante de tudo: não existe uma solução igual para todos. Um plano que resulta maravilhosamente para uma pessoa pode ser inútil — ou até contraproducente — para outra. É por isso que valorizo tanto a avaliação inicial: antes de propor seja o que for, procuro perceber a história, os fatores e o contexto de cada pessoa. Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem precisar de planos quase opostos: uma pode beneficiar de mais movimento e exposição gradual; outra, de começar por baixar o stress e a tensão antes de avançar. Adivinhar não chega — é a leitura individual que define o caminho certo.
No meu método de Saúde Integrativa, isto traduz-se em olhar para o todo — o movimento, o sono, a alimentação, as emoções — e desenhar a partir daí. Para os mecanismos que partilhamos todos, e para como a fisioterapia atua sobre eles, escrevi com mais detalhe no artigo sobre como a fisioterapia ajuda na dor crónica nas costas. Aqui, o essencial é outro: nenhum desses mecanismos se manifesta da mesma forma em duas pessoas, e é essa diferença que o tratamento tem de respeitar.
Por onde começar, se a sua dor parece não encaixar em nenhuma "caixa"?
Se sente que a sua dor é difícil de explicar, ou que tratamentos que funcionaram para outros não resultaram consigo, talvez a razão seja simples: a sua dor é sua. Não há nada de errado em ser diferente — há, sim, a necessidade de uma abordagem feita à sua medida.
Importa deixar claro que cada caso é único e que este texto não substitui uma avaliação clínica individual. Mas a mensagem de fundo é, no fundo, libertadora: a complexidade que torna a sua dor única é também a porta de entrada para uma solução verdadeiramente personalizada — uma que parte de quem você é, e não de uma média que não lhe diz respeito.
Perguntas frequentes
Porque é que o mesmo problema na coluna dói mais nuns do que noutros?
Porque a dor depende de muito mais do que a estrutura: genética, experiências, emoções e contexto fazem com que a mesma situação seja vivida de formas muito diferentes.
Ser mais sensível à dor é sinal de fraqueza?
Não. A sensibilidade à dor varia entre pessoas por fatores em grande parte genéticos e biológicos. Não é falta de resistência nem está na sua cabeça.
Se a dor é tão individual, há um tratamento que sirva para todos?
Não. Por isso o tratamento eficaz é personalizado: parte da história, dos fatores e das necessidades de cada pessoa.
As emoções e o stress mudam mesmo a forma como sinto a dor?
Sim. Fazem parte dos fatores que moldam a experiência de dor de cada pessoa, e trabalhá-los faz parte do tratamento.
Referências
- Gatchel RJ, Peng YB, Peters ML, Fuchs PN, Turk DC. The biopsychosocial approach to chronic pain: scientific advances and future directions. Psychol Bull. 2007;133(4):581-624.
- Mogil JS. Sources of Individual Differences in Pain. Annu Rev Neurosci. 2021;44:1-25.
- Woolf CJ. Central sensitization: implications for the diagnosis and treatment of pain. Pain. 2011;152(3 Suppl):S2-S15.