A síndrome do intestino irritável afeta o corpo todo, não só o intestino.
A síndrome do intestino irritável (SII) não afeta só o intestino. Através do eixo intestino-cérebro, da inflamação de baixo grau e de uma maior sensibilidade à dor (hipersensibilidade visceral), pode contribuir para dores noutras zonas do corpo, incluindo as costas. Não é coincidência: é o corpo a funcionar como um sistema integrado. Por isso, cuidar do intestino — alimentação, stress e estilo de vida — pode ser parte do alívio, sempre a par do acompanhamento médico.
O que é a síndrome do intestino irritável (SII)?
Já sentiu desconforto abdominal frequente, gases, inchaço ou alterações do trânsito intestinal sem causa aparente? Pode estar familiarizado com a síndrome do intestino irritável (SII), uma condição que afeta milhões de pessoas e é bem mais complexa do que parece.
A SII cursa com dor abdominal crónica, alterações do trânsito (diarreia, prisão de ventre, ou ambas) e inchaço. As suas causas ainda não estão totalmente esclarecidas, mas sabe-se que envolvem vários fatores — alterações da motilidade, inflamação de baixo grau, aumento da permeabilidade intestinal, hipersensibilidade à dor e o eixo intestino-cérebro. E há um aspeto que muitos desconhecem: a SII não afeta apenas o intestino. Pela estreita ligação entre o intestino e o resto do corpo, pode acompanhar-se de desconfortos noutras zonas, incluindo dores nas costas. É essa visão de corpo interligado que faz com que, na prática, raramente faça sentido tratar o intestino de um lado e a dor do outro, como se fossem problemas de pessoas diferentes.
Como é que o intestino e o cérebro conversam?
Pode parecer estranho, mas o intestino e o cérebro estão em diálogo constante. Comunicam através de nervos, hormonas e neurotransmissores — uma via a que se chama eixo intestino-cérebro. Este diálogo é vital para a digestão, mas também para o bem-estar geral e para a forma como sentimos dor.
O stress tem aqui um papel de destaque. A SII é, em grande parte, um distúrbio desta ligação cérebro-intestino, com uma resposta exagerada ao stress — e mediadores como a serotonina e a hormona do stress (CRH) ajudam a explicar como a tensão psicológica se traduz em sintomas no intestino. A própria flora intestinal participa nesta conversa, influenciando, por exemplo, a serotonina, tão importante na regulação do humor e da dor.
A SII pode causar dores noutras zonas, como as costas?
Aqui está a ligação que mais me interessa, enquanto fisioterapeuta. Quem tem SII apresenta, com frequência, uma maior sensibilidade à dor — a chamada hipersensibilidade visceral. E essa sensibilidade aumentada nem sempre se limita ao abdómen: o sistema nervoso, mais reativo, pode amplificar a dor noutras zonas do corpo, incluindo a região lombar.
A isto soma-se o fenómeno da dor referida, em que a dor que nasce num órgão interno é sentida noutro local, por partilharem vias nervosas. Por tudo isto, não é raro que uma dor nas costas sem causa óbvia tenha, afinal, uma ligação ao que se passa no intestino. É o mesmo sistema nervoso, demasiado em alerta, a manifestar-se em mais do que um sítio. Para a pessoa, isto é muitas vezes um alívio: perceber que as suas várias dores não são azar nem hipocondria, mas peças de um mesmo quadro, devolve sentido — e abre caminho a um tratamento que faça sentido.
Que papel têm a inflamação e a permeabilidade intestinal?
Na SII descreve-se, com frequência, um aumento da permeabilidade intestinal — por vezes referido de forma popular como "intestino permeável". Em termos simples, a barreira que separa o conteúdo do intestino do resto do corpo torna-se menos eficaz, o que pode favorecer um estado de inflamação de baixo grau.
A partir daqui, alguns investigadores estudam a hipótese de que esta inflamação, ligada ao intestino, possa influenciar também o cérebro — uma área de investigação ainda em aberto, mas promissora. O que já parece claro é que a inflamação e a forma como o cérebro processa a dor andam de mãos dadas. Por isso, baixar a inflamação de fundo costuma ser um bom ponto de partida para sentir menos dor, no intestino e fora dele.
E os mensageiros químicos do corpo?
O corpo regula a dor, a inflamação e a digestão através de uma série de mensageiros químicos — neurotransmissores e neuropéptidos. Já vimos dois protagonistas: a serotonina e a hormona do stress. Quando este sistema de mensageiros está em equilíbrio, ajuda a manter o intestino saudável e a dor sob controlo; quando se desregula, como acontece na SII, o corpo perde parte dessa proteção natural, e a dor pode intensificar-se — não só no abdómen, mas também noutras zonas. É um lembrete de que a dor crónica raramente tem uma causa única e mecânica; é antes o resultado de vários sistemas que deixaram de trabalhar em harmonia.
Não é preciso decorar os nomes destas substâncias. O importante é a ideia de fundo: a dor não é apenas mecânica, é também química e nervosa — e o estado do intestino faz parte dessa equação.
O que pode ajudar?
Há bastante a fazer, e quase tudo passa por cuidar do corpo como um todo. Do lado da alimentação, uma dieta mais anti-inflamatória, rica em fibra e pobre em produtos processados, pode ajudar a acalmar o intestino e a reduzir a inflamação — há inclusive estudos a mostrar benefício do aumento de certas fibras nos sintomas da SII. A gestão do stress (respiração, relaxamento), o exercício regular e um bom sono completam o quadro.
Do lado da dor, e em particular das costas, a fisioterapia ajuda a aliviar a tensão muscular, a melhorar a mobilidade e a postura e a trabalhar a relação da pessoa com a dor. Importa ser claro quanto ao âmbito: a SII é uma condição do foro médico, que deve ser diagnosticada e seguida por um médico. O meu papel, na Saúde Integrativa, é complementar — cuidar da parte musculoesquelética, do movimento e dos hábitos, em articulação com o acompanhamento médico.
Por onde começar, se as suas dores não parecem encaixar?
Se vive com dores difíceis de explicar — nas costas, por exemplo — e, ao mesmo tempo, com queixas intestinais, talvez valha a pena olhar para o intestino como parte do puzzle. Um bom primeiro passo é simples: cuidar da alimentação, hidratar-se, mover-se e baixar o nível de stress.
Importa deixar claro que cada caso é único e que este texto não substitui uma avaliação clínica nem o diagnóstico do seu médico. Mas a mensagem de fundo é a que orienta todo o meu trabalho: o corpo funciona como um sistema integrado, em que cada parte influencia as outras. E, muitas vezes, cuidar do intestino é também cuidar das costas — e do corpo inteiro.
Perguntas frequentes
A síndrome do intestino irritável pode causar dor nas costas?
Pode contribuir. Pela hipersensibilidade visceral e pela sensibilização do sistema nervoso, a SII associa-se com frequência a dores noutras zonas, incluindo as costas.
O que é o eixo intestino-cérebro?
É a comunicação constante entre o intestino e o cérebro, através de nervos, hormonas e neurotransmissores como a serotonina. O stress influencia muito esta ligação.
A alimentação ajuda na síndrome do intestino irritável?
Sim. Estudos mostram que ajustes alimentares, como aumentar certas fibras, podem aliviar os sintomas. A alimentação deve ser orientada e individualizada.
A fisioterapia trata a síndrome do intestino irritável?
Não trata a SII em si, que é do foro médico. Mas pode ajudar a aliviar a dor musculoesquelética associada e a trabalhar o stress e o estilo de vida, de forma complementar.
Referências
- Mamieva Z, Poluektova E, Svistushkin V, et al. Antibiotics, gut microbiota, and irritable bowel syndrome: What are the relations? World J Gastroenterol. 2022;28(12):1204-1219.
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- Di Rosa C, Altomare A, Terrigno V, et al. Constipation-Predominant Irritable Bowel Syndrome (IBS-C): Effects of Different Nutritional Patterns on Intestinal Dysbiosis and Symptoms. Nutrients. 2023;15(7):1647.