As costas não vivem isoladas do resto do corpo — o intestino também conta.
Pode parecer surpreendente, mas o sistema digestivo e a dor nas costas estão ligados. Problemas como a síndrome do intestino irritável podem amplificar a dor por todo o corpo através da sensibilização do sistema nervoso, dar origem a dor referida na zona lombar e alimentar a inflamação. Há ainda o eixo intestino-cérebro, que influencia a forma como sentimos a dor. Por isso, cuidar do intestino — com alimentação e estilo de vida — pode ser uma peça do alívio das costas.
O sistema digestivo pode mesmo estar ligado à dor nas costas?
Se sofre de dor nas costas, talvez nunca tenha pensado no seu sistema digestivo como suspeito. No entanto, esta ligação é mais comum do que parece. O corpo é uma rede em que tudo comunica, e quando o intestino não está bem, essa perturbação pode repercutir-se noutras zonas — incluindo a coluna.
No meu trabalho de Saúde Integrativa, em Aveiro, parto sempre deste princípio: tratar a origem, e não apenas o local que dói. E, em muitos casos, a origem (ou parte dela) está num sítio inesperado, como o aparelho digestivo. Vale a pena perceber porquê.
Como é que o intestino "fala" com as costas?
Há vários caminhos. O primeiro é a chamada dor referida: a dor que nasce num órgão interno pode ser sentida noutro local, por partilharem vias nervosas. Uma irritação ou inflamação no aparelho digestivo pode, por reflexo, gerar tensão e dor nos músculos da zona lombar — e a pessoa jura que o problema "é das costas", quando a faísca veio de dentro.
A isto soma-se a tensão muscular. O desconforto digestivo leva, muitas vezes, a uma postura de defesa e a uma contração mantida da musculatura abdominal e lombar, que por si só gera dor. São mecanismos discretos, mas reais — e que costumam passar despercebidos. Daí que, por vezes, uma dor lombar que resiste a todos os tratamentos focados apenas nas costas só comece a ceder quando se olha, finalmente, para o que se passa mais abaixo, no abdómen.
Que papel tem a sensibilização central?
Aqui está uma das chaves. Quando uma pessoa vive com uma condição digestiva crónica, como a síndrome do intestino irritável, o seu sistema nervoso pode tornar-se mais reativo à dor — um fenómeno conhecido como sensibilização central. O "volume" do alarme sobe, e estímulos que seriam inofensivos passam a ser sentidos como dolorosos, em várias zonas do corpo ao mesmo tempo.
É por isso que muitas dores não vêm sozinhas. A investigação mostra que problemas como a síndrome do intestino irritável partilham, com outras dores crónicas, estes mesmos mecanismos de sensibilização — o que ajuda a explicar por que razão quem tem queixas digestivas crónicas sofre, com frequência, também de dores noutras zonas, como as costas. Não é coincidência nem "azar": é o mesmo sistema nervoso, demasiado alerta, a manifestar-se em vários pontos do corpo ao mesmo tempo.
Que condições digestivas se associam à dor nas costas?
Algumas das mais frequentemente envolvidas:
- Síndrome do intestino irritável (SII). Cursa com inchaço, dor abdominal e alterações do trânsito; pela sensibilização que acabámos de ver, associa-se com frequência a dores noutras zonas, incluindo a lombar.
- Refluxo gastroesofágico. A subida do ácido do estômago provoca azia e pode acompanhar-se de tensão muscular no tronco e nas costas.
- Doença inflamatória intestinal (doença de Crohn, colite ulcerosa). Cursam com inflamação crónica e podem associar-se a dores, incluindo na coluna. São doenças que devem ser diagnosticadas e seguidas pelo médico.
- Prisão de ventre. Mais do que um incómodo abdominal, a distensão e o desconforto da obstipação podem repercutir-se na zona lombar. Beber água e uma alimentação rica em fibra ajudam a preveni-la.
Importa sublinhar: várias destas condições são do foro médico. O meu papel, como fisioterapeuta, é complementar — trabalhar a parte musculoesquelética e os hábitos —, nunca substituir o diagnóstico e o tratamento médicos.
A alimentação influencia a dor nas costas?
Sim, e este é um dos pontos centrais da minha abordagem. Uma alimentação desequilibrada — rica em produtos processados, açúcar e gorduras pouco saudáveis — favorece um estado de inflamação no corpo, que pode desencadear ou agravar a dor. Pelo contrário, uma alimentação equilibrada, rica em fibra, fruta, legumes e gorduras saudáveis, ajuda a reduzir essa inflamação e a melhorar a saúde digestiva.
Por outras palavras: aquilo que põe no prato não fica no intestino. Reflete-se no estado geral do corpo e, sim, também na forma como as suas costas se sentem. É uma das traduções mais concretas da ideia de que somos, em boa medida, aquilo que comemos e como o digerimos. Pequenas mudanças alimentares, mantidas no tempo, podem ser uma peça surpreendentemente importante do alívio.
O que é o eixo intestino-cérebro?
Talvez já tenha ouvido chamar ao intestino o "segundo cérebro". Não é exagero: existe uma comunicação constante entre o intestino e o cérebro, o chamado eixo intestino-cérebro. O intestino e a sua flora influenciam, por exemplo, a produção de serotonina — uma substância que participa na regulação do humor, do sono e também da dor.
É por isso que um intestino em desequilíbrio pode alterar a forma como o corpo percebe a dor, incluindo a dor nas costas. Esta é ainda uma área em pleno estudo, mas aponta para algo que faz todo o sentido na minha prática: cuidar do intestino pode ser um passo concreto para sentir menos dor.
Como ajudo isto em Aveiro — e por onde pode começar?
No meu método de Saúde Integrativa, trabalho esta ligação nos dois sentidos. Do lado do corpo, uso técnicas que ajudam a relaxar a musculatura abdominal e lombar, a melhorar a mobilidade e a postura e a aliviar a tensão associada ao desconforto digestivo. Do lado dos hábitos, oriento mudanças simples e sustentáveis: hidratação adequada, alimentação mais anti-inflamatória e rica em fibra, exercício regular (que mantém o intestino e as costas a funcionar), alongamentos e gestão do stress — que, como se sabe, afeta tanto o intestino como a dor.
Se quiser dar o primeiro passo hoje, comece pelo mais simples: beba mais água, inclua mais fibra e vegetais nas refeições, e mantenha-se em movimento. Importa deixar claro que cada caso é único e que este texto não substitui uma avaliação clínica nem o diagnóstico do seu médico, sobretudo se tem sintomas digestivos persistentes. Mas a mensagem de fundo é a que guia todo o meu trabalho: as costas não vivem isoladas do resto do corpo — e, muitas vezes, cuidar do todo é o caminho mais curto para aliviar a parte.
Perguntas frequentes
A dor nas costas pode vir do intestino?
Pode estar ligada. Problemas digestivos podem gerar dor referida na zona lombar e, através da sensibilização do sistema nervoso, amplificar a dor noutras zonas do corpo.
Se tenho síndrome do intestino irritável, é normal ter mais dores no corpo?
É frequente. Quem tem SII tende a ter mais dores noutras zonas, porque partilham mecanismos de sensibilização do sistema nervoso.
A alimentação pode aliviar a dor nas costas?
Pode ajudar. Uma alimentação mais anti-inflamatória e equilibrada contribui para reduzir a inflamação de fundo, o que pode refletir-se na dor.
O que é o eixo intestino-cérebro?
É a comunicação constante entre o intestino e o cérebro. O intestino e a sua flora influenciam, por exemplo, a serotonina, que participa na regulação da dor e do humor.
Referências
- Woolf CJ. Central sensitization: implications for the diagnosis and treatment of pain. Pain. 2011;152(3 Suppl):S2-S15.
- Traub RJ, Cao DY, Karpowicz J, et al. A clinically relevant animal model of temporomandibular disorder and irritable bowel syndrome comorbidity. J Pain. 2014;15(9):956-966.
- Roth W, Zadeh K, Vekariya R, Ge Y, Mohamadzadeh M. Tryptophan Metabolism and Gut-Brain Homeostasis. Int J Mol Sci. 2021;22(6):2973.