Mais abdominal nem sempre é menos dor: o que conta é mover-se bem.

Não. Fortalecer os abdominais não é a solução para a dor lombar. A ideia de que um core fraco causa dor nas costas assenta em pressupostos que a ciência não confirma, e as revisões mostram que os exercícios de estabilização ajudam, mas não mais do que qualquer outra forma de exercício ativo. O que faz diferença não é apertar o abdominal, mas recuperar bons padrões de movimento, reduzir tensões desnecessárias e manter o corpo ativo de forma global.

O fortalecimento abdominal protege mesmo a coluna?

Durante anos repetiu-se que ter abdominais fortes é essencial para proteger a coluna e evitar a dor lombar. É uma ideia tão difundida que muitas pessoas treinam o abdominal a sério, convencidas de que assim estão a "blindar" as costas. No meu trabalho em Aveiro, recebo com frequência quem passou meses a fazer pranchas e exercícios de core e mesmo assim continua com dor — e fica confuso por não perceber porquê.

A resposta é mais simples do que parece: a relação entre força abdominal e dor nas costas nunca foi tão direta como nos venderam. A coluna não depende de um músculo isolado para se manter estável. Depende de uma interação complexa entre músculos profundos e superficiais, articulações, e do próprio sistema nervoso a coordenar tudo isto. Reduzir a saúde das costas à força do abdómen é uma simplificação que não se sustenta.

O que é a "estabilidade do core" — e porque é considerada um mito?

O conceito de "core stability" tornou-se quase um dogma no exercício e na reabilitação. Mas uma análise crítica conhecida na área (Lederman, 2010) reexaminou os estudos que deram origem a esta ideia e mostrou que muitos dos seus pressupostos não resistem a um olhar atento. Por exemplo: não está provado que ter o abdominal "fraco" cause dor lombar, nem que treinar a contração permanente desses músculos previna lesões. Um exemplo simples ilustra-o bem: durante a gravidez, os músculos abdominais sofrem enormes alterações e perdem força — e, ainda assim, muitas mulheres não desenvolvem dores nas costas significativas. Se o abdominal fraco fosse, por si só, a causa da dor, seria de esperar exatamente o contrário.

Mais: o corpo saudável não funciona em contração constante. Apertar o core de forma permanente é, na verdade, um padrão pouco natural — e que em alguns casos pode até aumentar a rigidez e a tensão, em vez de aliviar. Isto não significa que exercícios de core sejam "maus". Significa apenas que a história de que o abdominal forte é a chave da coluna saudável é, em boa parte, um mito.

Vale a pena esclarecer o que isto não quer dizer. Não significa que o exercício não sirva — serve, e muito. Significa apenas que o benefício não vem de um músculo específico, nem da obsessão com a contração perfeita, mas do facto de pôr o corpo a mexer-se com regularidade e sem medo.

Porque é que os exercícios tradicionais de core nem sempre resultam?

Quando alguém me chega depois de muito tempo a treinar o abdómen sem melhorar, o problema raramente é falta de esforço. É o foco. Exercícios como pranchas, abdominais e contrações isométricas podem aumentar a resistência muscular, mas tratam o sintoma de forma isolada e ignoram a função global do corpo.

Uma revisão sistemática de 2014, que juntou dezenas de estudos, chegou a uma conclusão clara: os exercícios de estabilização ajudam na dor e na incapacidade, mas não mais do que qualquer outra forma de exercício ativo. Ou seja, o benefício não vem do abdominal em si — vem de a pessoa se mover. Quando se percebe isto, deixa de fazer sentido prender alguém a um protocolo rígido de core e passa a fazer todo o sentido devolver-lhe movimento variado e prazeroso.

Há ainda um ponto que costumo sublinhar: o medo. Quem acredita ter uma coluna frágil tende a mexer-se menos e a evitar atividades — e esse evitamento, com o tempo, agrava a própria dor. Mostrar à pessoa que a sua coluna é robusta e que o movimento é seguro é, muitas vezes, tão importante como qualquer exercício que eu lhe possa propor.

Então o que ajuda realmente na dor lombar?

Se a força abstrata não é a resposta, o que é? Na minha experiência, e em linha com a evidência, o caminho passa menos por "fortalecer" e mais por reequilibrar. Em concreto, costumo trabalhar quatro frentes:

  • Libertar tensão. Em vez de contrair músculos sem necessidade, ajudo o corpo a soltar as zonas que estão sobrecarregadas.
  • Reequilibrar a postura. Pequenos ajustes na forma como nos sentamos, levantamos e movemos fazem, somados, uma grande diferença.
  • Recuperar movimento funcional. Restabelecer padrões naturais de movimento reduz a sobrecarga na coluna e diminui a probabilidade de novas crises.
  • Desenvolver consciência corporal. Sentir melhor o próprio corpo melhora a coordenação e corrige compensações que passam despercebidas.

Nada disto é um protocolo igual para todos. Cada pessoa tem uma história, um estilo de vida e uma biomecânica próprios — e a abordagem tem de partir daí.

Na prática, isto traduz-se em começar pelo que a pessoa consegue e gosta de fazer — caminhar, nadar, dançar ou treinar de forma variada — e progredir a partir daí, com calma. Um plano simples que se mantém ao longo dos meses vale muito mais do que o exercício teoricamente perfeito que se abandona ao fim de duas semanas.

Como abordo isto na Saúde Integrativa, em Aveiro?

No meu método de Saúde Integrativa, a dor lombar nunca é olhada como um problema apenas mecânico. Trato a origem, não só o sintoma, integrando quatro pilares: gestão emocional, alimentação, liberdade de movimento e estilo de vida. O movimento é um deles — central, mas não isolado.

Por isso, antes de propor qualquer exercício, procuro perceber o todo: como dorme, o nível de stress, quanto se mexe ao longo do dia, o que agrava e o que alivia a dor. É essa leitura completa que permite desenhar um plano que faça sentido para a pessoa, em vez de mais um conjunto genérico de abdominais. O objetivo não é "fortalecer indiscriminadamente", mas devolver à pessoa um corpo que se move bem e com confiança.

Por onde começar, se a dor lombar não passa?

Se já tentou fortalecer o abdómen sem resultado, talvez o problema não tenha sido falta de empenho — mas o foco errado. O primeiro passo mais útil é deixar de perseguir um músculo e começar a olhar para o movimento e para o conjunto dos hábitos que influenciam a sua dor.

Importa deixar claro que cada caso é único e que este texto não substitui uma avaliação clínica individual. Mas a mensagem de fundo aplica-se a quase toda a gente com dor lombar: a chave de uma coluna saudável não está apenas na força, e sim no equilíbrio entre estabilidade, mobilidade e bons padrões de movimento.

Perguntas frequentes

Devo deixar de fazer abdominais ou prancha?

Não necessariamente. O problema não é o exercício em si, mas a ideia de que fortalecer o abdominal é a solução para a dor. Se gosta de pranchas, podem fazer parte de um plano variado — não são nem obrigatórias nem mágicas.

Se não é a força abdominal, o que causa a dor lombar?

Na maioria dos casos de dor lombar não específica não existe uma causa única. Padrões de movimento, tensão mantida, stress, sono e nível de atividade costumam pesar mais do que a força de um músculo isolado.

Qual é o melhor exercício para a dor lombar?

Não há um melhor exercício universal. A evidência mostra que o mais importante é manter-se ativo com um tipo de movimento de que goste e que consiga manter ao longo do tempo, adaptado a si.

Referências

  • Lederman E. The myth of core stability. J Bodyw Mov Ther. 2010;14(1):84-98.
  • Smith BE, Littlewood C, May S. An update of stabilisation exercises for low back pain: a systematic review with meta-analysis. BMC Musculoskelet Disord. 2014;15:416.