A coluna não precisa de uma armadura de tensão: relaxar também trata.

Manter os músculos abdominais contraídos o tempo todo — o chamado bracing — não protege a coluna como se costuma dizer, e pode até prejudicar. Essa tensão contínua aumenta a compressão sobre os discos e torna o movimento mais rígido e menos eficiente, à custa de mais cansaço e, muitas vezes, mais dor. O corpo não precisa de tensão permanente para se estabilizar: ativa os músculos certos no momento certo. Por isso, relaxar e mover-se de forma natural também faz parte do tratamento.

O que é a contração abdominal contínua (bracing) e porque é tão recomendada?

Se já procurou tratamento para a dor nas costas, é provável que lhe tenham dito para "ativar o core" ou manter a barriga contraída para proteger a coluna. A esta prática de manter os músculos abdominais permanentemente tensionados — mesmo a caminhar ou sentado — chama-se "bracing". Tornou-se popular em muitos programas de exercício e até em alguma fisioterapia.

A teoria é simples e intuitiva: abdominais contraídos = coluna protegida. Mas, como tantas vezes acontece, a solução mais simples não é a melhor. A ideia de andar o dia inteiro com o abdómen "apertado" merece ser questionada — porque pode estar a criar precisamente o problema que pretende evitar. Este artigo aprofunda esse ponto; para o quadro mais geral, escrevi também sobre o mito do fortalecimento abdominal.

O corpo precisa de tensão constante para estabilizar a coluna?

Instalou-se a ideia de que a coluna é uma estrutura frágil, que precisa de suporte permanente para não "ceder". Não é verdade. A coluna é robusta, e a sua estabilidade não depende de manter um grupo de músculos sempre ligado.

O corpo foi feito para se mover de forma fluida e económica, ativando os músculos de que precisa, na intensidade que precisa, no momento em que precisa — e relaxando-os a seguir. É esta variação inteligente, e não uma tensão constante, que sustenta a coluna no dia a dia. Pense numa pessoa a andar: os músculos ligam-se e desligam-se em frações de segundo, sem que ela tenha de pensar nisso. Forçar uma contração permanente é interferir nesse mecanismo afinado. Manter tudo contraído é trabalhar contra a forma como o corpo realmente funciona.

Como é que o bracing pode aumentar a compressão da coluna?

Aqui está um dos riscos centrais. A análise crítica de Lederman ao conceito de "core stability" argumenta que manter os abdominais em contração contínua aumenta a força exercida sobre a coluna — e, com ela, a compressão sobre os discos intervertebrais.

Para quem já tem dor nas costas, isto é particularmente relevante: a compressão adicional pode agravar o desconforto em vez de o aliviar. Se sente rigidez e tensão constantes, vale a pena perguntar se parte dessa sensação não virá precisamente do esforço de manter a barriga sempre apertada. Por outras palavras, a "proteção" pode estar a transformar-se em sobrecarga. É um bom exemplo de como uma intenção certa — cuidar da coluna — pode dar origem, na prática, ao efeito contrário, quando assenta num pressuposto errado sobre como o corpo funciona.

Porque é que a tensão constante piora a economia de movimento?

Este é talvez o ponto menos falado — e dos mais importantes. O corpo procura mover-se com o mínimo de energia necessária. Quando aprendemos um gesto novo, no início enrijecemos e contraímos vários músculos ao mesmo tempo — a chamada co-contração. É por isso que os iniciantes parecem rígidos e se cansam depressa.

À medida que ganhamos destreza, o sistema nervoso reduz essa co-contração: o movimento torna-se mais suave, fluido e económico. Ora, manter o abdómen contraído durante as atividades diárias é, no fundo, regredir de propósito para o padrão do iniciante — rígido, ineficiente e cansativo. Não é por acaso que muitas pessoas que vivem "de barriga apertada" se queixam de fadiga e de uma sensação de tensão que nunca passa. O corpo não foi pensado para estar em alerta permanente; quando o obrigamos a isso, paga-se o preço em energia, em rigidez e, muitas vezes, em mais dor.

O bracing pode ser um hábito de defesa?

Há ainda uma camada mais subtil. Quando há dor, o corpo tende a proteger-se: enrijece e contrai músculos à volta da zona dolorosa, numa espécie de "guarda" defensiva. A investigação descreve bem esta adaptação — perante a dor, movemo-nos de forma diferente para nos protegermos.

A curto prazo, faz sentido. O problema é quando essa guarda se torna permanente: a tensão de defesa, mantida por meses, deixa de proteger e passa a alimentar a rigidez e a dor. Muitas das pessoas que acompanho chegam exatamente assim — a tentar controlar a dor com mais tensão. E, com frequência, quando reaprendem a relaxar e a confiar no movimento, a dor diminui e o corpo solta-se. Não se trata de "deixar de proteger", mas de perceber que a proteção, levada ao extremo e prolongada no tempo, deixa de servir o seu propósito.

Então o que funciona melhor?

Se a tensão constante não é a resposta, qual é? Não é o oposto — andar "mole" e sem tónus —, mas sim recuperar a variação natural: ativar quando é preciso, relaxar quando não é, e mover-se de forma eficiente. A evidência, aliás, mostra que os exercícios focados no controlo dos músculos profundos não são superiores a outras formas de exercício; o que conta é mover-se bem, não apertar mais.

No meu método de Saúde Integrativa, em Aveiro, trabalho precisamente isto: ajudar a pessoa a largar a tensão desnecessária, a redescobrir um movimento mais fluido e a fortalecer o corpo como um todo, sem o aprisionar numa contração permanente. Relaxar, neste contexto, não é "não fazer nada" — é uma competência terapêutica, tão importante como saber contrair. Aprender a alternar entre tensão e relaxamento, conforme a tarefa, é o que devolve ao corpo a fluidez e a resistência que a tensão constante, na verdade, lhe retira.

Por onde começar, se vive "de barriga apertada"?

Se segue há tempo um regime de contração abdominal contínua e a dor não melhora — ou até piorou —, talvez valha a pena reconsiderar. Experimente reparar, ao longo do dia, se está a manter o abdómen apertado sem necessidade, e veja como se sente ao deixá-lo soltar enquanto respira.

Importa deixar claro que cada caso é único e que este texto não substitui uma avaliação clínica individual. Mas a ideia de fundo é simples e libertadora: a sua coluna não precisa de uma armadura de tensão para estar segura. Muitas vezes, parte do caminho para menos dor passa, paradoxalmente, por aprender a relaxar.

Perguntas frequentes

Tenho de contrair a barriga para proteger as costas quando levanto peso?

Nem sempre. A tensão excessiva e contínua pode até aumentar a carga sobre a coluna. O corpo ativa os músculos de que precisa no momento certo; forçar tensão permanente costuma ser contraproducente.

Então os exercícios de core são maus?

Não é isso. O problema não é o exercício em si, mas a ideia de manter o abdominal contraído o tempo todo. Mover-se de forma variada e relaxada é mais útil do que uma tensão constante.

Porque é que me sinto rígido e cansado ao fim do dia?

Pode ter a ver com manter músculos em tensão constante. Essa co-contração gasta energia e torna o movimento menos eficiente, deixando uma sensação de rigidez que não passa.

Relaxar pode mesmo ajudar a dor nas costas?

Sim. Reaprender a relaxar os músculos e a mover-se de forma natural faz parte do tratamento e, muitas vezes, reduz a dor.

Referências

  • Lederman E. The myth of core stability. J Bodyw Mov Ther. 2010;14(1):84-98.
  • Hodges PW, Tucker K. Moving differently in pain: a new theory to explain the adaptation to pain. Pain. 2011;152(3 Suppl):S90-S98.
  • Saragiotto BT, Maher CG, Yamato TP, et al. Motor control exercise for chronic non-specific low-back pain. Cochrane Database Syst Rev. 2016;(1):CD012004.